Caindo do cavalo

“Caindo do cavalo”

por paulo maia

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Foi a Autoridade de Segurança Alimentar e Econômica, ASAE, que flagrou e proibiu que mais de 12 mil lasanhas embaladas chegassem à mesa do consumidor, pelo simples fato de que o seu recheio não continha carne bovina como anunciado e, sim, de cavalo. A lasanha da marca EuroShopper estava sendo vendida, em Portugal, nas lojas que, ironicamente, têm o nome de Recheio.

As iguarias com carne de cavalo foram apreendidas após uma notificação do Sistema Comunitário de Alerta Rápido para Alimentação, por suspeita de riscos para a saúde pública. A carne de cavalo pode transmitir à humanidade doenças e pelo menos um homem, Robert Powell, que mora em Pontypool, no Reino Unido, ficou quase duas semanas internado no hospital de Cardiff, com um quadro agudo de infecção depois de ter consumido a lasanha recheada com carne de cavalo. Segundo informações do jornal britânico The Sun, Powell ficou chocado quando os médicos diagnosticaram que ele tinha uma infecção no fígado e na coluna, patologias identificadas em equinos.

Até este momento, foram instaurados três inquéritos por fraude econômica e a venda do produto está bloqueada.

Este é o segundo caso de vestígios de carne de cavalo em refeições pré-cozidas à venda em Portugal. Numa lasanha da Nestlé, comercializada com exclusividade para hotéis e restaurantes, foi confirmada esta semana a presença deste tipo de carne.

Os primeiros casos surgiram em janeiro, na Irlanda, com a detecção de vestígios em hambúrgueres de marcas irlandesas e britânicas, países que, como o Brasil, possuem o tabu ao consumo de carne de cavalo.

Aqui no Brasil, onde florestas são absurdamente derrubadas para criação de gado, até o momento nenhuma autoridade veio a público falar sobre o assunto. A questão que neste momento está na pauta do governo é a suspensão da importação da carne bovina por 10 países. O embargo na compra da carne bovina brasileira acontece em função da existência do agente causador do mal da vaca louca, detectado no estado do Paraná. Diante disso, é urgente se tornar transparente a informação sobre o consumo de carne animal em nosso país. Se dez países se recusam a importar a carne produzida aqui, qual será o argumento dos produtores, técnicos e de nossas autoridades para que os brasileiros continuem consumindo a carne rejeitada no exterior? Se no mercado europeu está acontecendo um derrame de produtos com carne de cavalo, será que o mesmo não está acontecendo aqui? Ou estaria o Brasil e a América Latina, maiores produtores de carne bovina do planeta, a salvo? Não seria o caso do governo fazer um comunicado, em rede nacional, mostrando transparência à população, acabando assim com as dúvidas? Não seria bom o governo se movimentar, já que está empacado, antes que as informações comecem a ganhar corpo, fazendo assim com que a população acredite que o pronunciamento das autoridades foi tão tardio que o que estão ouvindo é conversa para boi dormir e que, por terem demorado tanto a informar a realidade dos fatos à população, alguém, literalmente, irá cair do cavalo?

Paulo Maia é ambientalista e presidente da ONG SOS AVES E CIA.

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Doze vezes, doze tiros…

“Doze vezes, doze tiros…”

por paulo maia

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Doze! Um apenas bastava, dois talvez, três quem sabe, para se certificar que não existe mais possibilidade de vida! Mas, não. Foram doze! Doze vezes para confirmar que quem lutava está morto. Morto de morte matada. Não fica dúvida. Doze tiros e acabou!
Pensa ele, o atirador que recebeu migalhas para terminar com a vida de um humilde lavrador, que, ao ceifá-la, o problema estaria resolvido. Ledo engano. Não se resolve um problema desta dimensão a bala.

Em um país de vastas terras, de dimensão continental, irremediavelmente a parte que sempre cabe a quem luta por sua divisão é uma pequena porção, uma cova, rasa por sinal.
Na gigantesca nação que dorme em berço esplêndido, os seus filhos que não fogem à luta são mortos porque querem simplesmente ter o direito de nela plantar e dela tirar seus frutos.
Quando o emblemático ambientalista Chico Mendes foi assassinado em 1988 e Lula era o então candidato à Presidência da República, nas eleições que batiam à nossa porta, o funeral levou três dias. As autoridades falaram. Falaram muito. Haja discurso! De lá para cá, quase nada mudou, pouca coisa foi feita e os campos continuam sendo irrigados com sangue de inocentes brasileiros. De trabalhadores brasileiros. De homens e mulheres que não fogem à luta e acreditam que a decência do tremular de uma bandeira lhe dará o que precisam: a posse da terra prometida! A posse da terra tão esperada! Enfim, a posse da terra amada!

A todo instante os jornais noticiam mais um crime e as autoridades, não raramente, informam que “uma rigorosa investigação irá acontecer, doa a quem doer”. Mas o que se vê depois são os pistoleiros e os mandantes dos crimes circulando pelas ruas em um afronto à sociedade.

Os conflitos por essas terras derrubam ao chão vítimas que, muitas das vezes, sequer sabem porque estão morrendo. Gente que vem de longe, como o caso da missionária norte americana Dorothy Stang que perdeu a vida para seis tiros disparados a queima roupa. Minutos antes de morrer, ela questionara o seu algoz porque ele a mataria.

No último domingo, sepultamos mais um inocente que, como milhões, queria ver a terra dividida, semeada, com seus frutos colhidos, seus filhos alimentados, dando, assim, dignidade às suas vidas.

Cícero Guedes, morto com o dobro de tiros que matou Dorothy Stang, era coordenador do MST, em Campos dos Goytacazes. O que a sociedade brasileira espera neste momento? O que esperamos todos nós, neste momento, é que as autoridades não apareçam com suas frases perfeitas e, sim, com um pensamento lógico, que é a definitiva reforma agrária deste pais. Terra para quem nela quer trabalhar e não para devassos que se estendem em largos braços, especulando-as financeiramente ou ocupando-as com os olhos da ganância.

Paulo Maia é ambientalista e presidente da ONG SOS AVES E CIA.

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