Como se escreve ‘COMPANHEIRO’ na língua de Ahmadinejad?

[EXPAND Saiba mais]

Por: Paulo Maia

O substantivo companheiro, embora distorcido pelo presidente do nosso país, quando no início deste mês, em palanque eleitoreiro, chamou de “Companheiro” o hoje senador Fernando Collor de Mello, tem como significado maior em nossa língua um sentido que parece não se adequar à realidade deste fato.

Como também não se adequa à realidade dos fatos o presidente de uma nação democrática como o Brasil chamar de “Companheiro” o ditador Mahmoud Ahmadinejad, presidente iraniano que nega o holocausto, subestima as mulheres, persegue os homossexuais e afaga a guerra nuclear, enriquecendo o urânio em 20%, mesmo sofrendo sanções promovidas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

 

O contraditório desta história é que os companheiros da nação cubana são ignorados quando estão perdendo suas vidas para uma ditadura, sob o argumento de que “não devemos nos intrometer nas questões da soberania dos países”, o que se torna no mínimo constrangedor quando vem à mente que o “Companheiro” Manuel Zelaia teve “emprestada” a embaixada do Brasil, em Honduras, para se esconder, quando viu falida a sua tentativa de tentar estender o seu desastroso mandato de presidente naquele país.

 

Em nossa língua, o sentido real da palavra companheiro é aquele que é colega, que é camarada, que acompanha.

 

Pode-se pensar que a real intenção da autoridade maior da nossa nação foi chamá-los de comparsas, substantivo que tem em seu significado maior se tratar de pessoas que, em qualquer negócio, representam um papel insignificante.

 

Senão, como conseguir entender esta aberração do nosso presidente, que parece buscar dar significado ao que é inadmissível e ignorar o que todos vêem. Como alguém que tenha índole pode querer ter como colega um presidente que tentou rasgar a Constituição de um país em seu próprio benefício? Como alguém pode querer ter como camarada um presidente que apregoa o bélico prestigiando a dor e a agonia? Como alguém pode imaginar ter como companhia um ex-presidente de uma nação deposto pelo povo e ter como companheiros dois ex-presidentes do Senado que, envolvidos em escândalos financeiros, renunciaram para não serem cassados? Só podemos entender esta lógica quando imaginamos que alguma coisa está fora da ordem.

 

Aprendemos desde cedo que honra e ética são amigas do homem de bem e que matar, roubar e corromper são ações praticadas por marginais.

 

Diante desta situação, nunca antes vista na história do nosso país, que tenta a qualquer custo igualar todos os homens e onde a lógica implementada é a de que os fins justificam os meios, devemos nos questionar o quanto de maléfico isso já nos trouxe e ainda trará para nossa frágil sociedade. A catástrofe moral advinda com essa troca de valores nos traz uma tormenta tão grande que, sem percebermos, nos tornamos passivos sem sequer questionar a respeito dos fatos.

 

Vale lembrar que no ano de 1988 perdemos, assassinado, um verdadeiro líder que em muito nos ajudaria, pelo simples fato de que apregoava a decência como valor maior. Chico Mendes, imbuído de honra e ética, sucumbiu a tiros nos seringais do Acre porque revelava a verdade. E, em sua integridade moral, pedia que nos manifestássemos em busca da verdade. Verdade esta que o nosso governante tenta nos esconder impondo os seus equívocos, mas que caem por terra quando, por exemplo, observamos o descaso com o nosso meio ambiente.

 

Enquanto o Ministério do Meio Ambiente alardeia na mídia números incorretos sobre a queda nos desmatamentos e nas queimadas de nossas florestas, o que temos de real é que parece que estamos vivendo em uma terra sem lei.

 

Em nosso país, segundo a coluna Panorama Político, da jornalista Miriam Leitão, em dez anos os desmatadores destruíram 260 hectares na Mata Atlantica, ou 2,6 mil km², o equivalente a duas cidades do Rio; e 176 mil quilometros km² na Amazônia, área maior que toda a Inglaterra. Em sete anos, afirma a coluna, foram 85 mil km² de cerrado; 4,3 mil km² no Pantanal e 16,5 mil km² na caatinga. E o que o nosso Congresso está discutindo não é como parar o crime, mas como perdoar os criminosos, concretiza a colunista.

 

Diante deste cenário, onde criminosos e companheiros parecem ter o mesmo sentido, só nos resta a perplexidade. A não ser que no idioma de Marmond Ahmadinejah e seus seguidores, companheiro tenha uma justificativa não encontrada nas línguas portuguesa e espanhola e, assim, maléficamente, possam nos convencer de que não adianta tentar mudar este quadro que já está entranhado como um câncer que necrosa a olhos vistos e que irá adoecer toda a nação, levando à morte jovens inocentes que sequer ficaram sabendo que, contra uma política sórdida, existia um antídoto eficaz chamado valor moral, onde homens e mulheres, companheiros ou não, de verdade, se respeitavam mutuamente.

 

PAULO MAIA É JORNALISTA, AMBIENTALISTA, DIRETOR PRESIDENTE DA ONG SOS AVES E CIA.

[/EXPAND]

A mídia como ferramenta de formação de massa crítica a respeito dos impactos da pecuária

[EXPAND Saiba mais]

Por: Paulo Maia

No mundo das coisas, a palavra possui uma tônica que você não consegue imprimir no mundo das idéias.
Quando algo tem que acontecer, a palavra do mundo das coisas ganha uma força tão grande que tudo passa a girar em torno daquilo que está para acontecer. O fato. O acontecimento.
Não adianta buscar o mundo das idéias, você não irá conseguir reverter, naquele momento, o que está para acontecer.
Estou abrindo o nosso trabalho aqui dizendo isso porque penso que tento de todas as formas buscar a palavra que se encaixe no mundo das coisas. Fui convidado para falar aqui sobre… “A mídia como ferramenta de formação de massa crítica a respeito dos impactos da pecuária”.
Isso me fez lembrar uma história que a cantora Maria Bethânia conta. Ela diz que um dia recebeu uma música da Adriana Calcanhoto e ficou impressionada diante da beleza de… ” quando vejo seu corpo refletindo o por do sol”. Ligou para a Adriana e disse que iria gravar a música e ela daria nome ao seu disco. Meses depois estava sendo lançado: “Âmbar”.
Como não possuo o talento da Bethânia para sintetizar, muito embora tenha me empenhado muito, mas confesso que não tenho conseguido nenhum avanço, vamos então conversar um pouco sobre… “A mídia como ferramenta de formação de massa crítica a respeito dos impactos da pecuária”.

” A mídia ”

E para começar a nossa saga, vamos tentar entender como ela pode funcionar, ou não, como ferramenta de formação de massa crítica a respeito dos impactos da pecuária.
Para isso, vamos dividir o nosso trabalho em 4 Tópicos:

O início

“A mídia é orquestrada pelos proprietários de suas emissoras e/ou pelos seus patrocinadores”, afirmam, declaradamente, os que contestam a mídia em nosso país. No que eu concordo. “A mídia serve somente ao interesse dos que detêm o seu poder”. Concordo de novo. “A mídia atual serve tão somente como objeto alienador”. Aí eu discordo. Já foi pior. Senão, vejamos:
No início, o jornal em nosso país foi usado como instrumento de um grupo e beneficiava somente a este grupo. Um exemplo disso é que no período da escravidão, os donos de escravos tinham o seu próprio jornal ou patrocinavam quem tinha seu periódico e os abolicionistas que se virassem para possuírem os deles.
Com o advento do rádio – para quem não sabe, tanto este veículo como a televisão são uma concessão que pertence ao governo – a coisa não foi diferente. Em seu início, chegou a servir por anos a fio somente ao estado brasileiro.
Com o implemento da televisão, a mesma ladainha se repete. Ela servia de veículo para o grupo a que pertencia e seus programas eram patrocinados abertamente por empresários que queriam fazer parte deste grupo. Um exemplo curioso é que os programas eram patrocinados por marcas de bancos e empresas. Você sabia, por exemplo, que quando a Rede Globo lançou o Jornal Nacional suas transmissões se resumiam ao Rio, a São Paulo e a outros míseros locais. Então, como que um programa de jornal poderia ter esse nome? Resposta fácil para a época. Pelo simples fato de que era patrocinado pelo Banco Nacional, da família do político mineiro Magalhães Pinto.
Hoje, o mesmo acontece, só que de forma escamoteada. Grupos de famílias detêm jornais e emissoras de rádio e televisão e vendem esses veículos, através da publicidade, em suas maiores parcelas para grupos de famílias que são donos de bancos, empresas e fábricas. Isso acontece mesmo recebendo incentivo do governo. Na América Latina, a televisão é o maior veículo de informação. Em nosso país, o Jornal Nacional, da Rede Globo é o meio de informação de 90% dos brasileiros.
Enquanto a televisão é essa coca cola toda na América Latina, a internet caminha a passos largos em países desenvolvidos e a passos lentos nos subdesenvolvidos. No Brasil, ainda não há representatividade de informação para a internet por inúmeros motivos e o maior deles é a falta de credibilidade do veículo. Os sites de notícias possuem visitação segmentada e pequena e os de notícias sobre o meio ambiente e defesa animal idem, comparados aos números da televisão.
Dito isto, passamos ao nosso segundo tópico:
A importância da mídia no Brasil. Seria ela o quarto poder? Temos então o Legislativo, o Executivo, o Judiciário e o mais poderoso de todos: O STFI (Superior Tribunal Federal da Informação).
Vejamos. Muitas das vezes, causas que são fáceis de imaginar o seu fim ou pelo menos de que forma será travada a peleja, elas sequer existem pelo simples fato de que a opinião pública terá acesso à informação do que aconteceu e poderá se rebelar com o resultado.
Um exemplo recente é o caso da ex-ministra e atual senadora e pré-candidata à presidência de nosso país, Marina Silva. É prerrogativa da discussão partidária que o mandato político não é do candidato e sim do partido. Marina Silva é uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores e se elegeu senadora por ele. Logo, ao sair do partido deveria entregar o cargo. Não o fez e o PT sequer questionou. O Partido dos Trabalhadores fez isso pelo simples fato de que percebeu que toda a opinião pública seria informada pela mídia da peleja no tribunal e o desgaste político do presidente da nação seria estratosférico, pelo simples fato de que poderia soar como perseguição a senadora.
Em suma, foi o STFI que, mesmo sem se pronunciar, resolveu a questão. Como este, existem inúmeros casos em que a opinião pública, informada pelo STFI, é capaz de mudar os seus andamentos ou sequer permitir que eles tenham início. Para não deixar isolado o caso da pré-candidata à Presidência da República Marina Silva, temos no mesmo balaio o senador sulista da família Arns que era do PT, na mesma época e pelo mesmo motivo que o de Marina Silva, abandonou o PT e foi para o PSDB e nada aconteceu.
Então chegamos agora ao nosso maior e mais esperado tópico que é o…
Os grandes patrocinadores aliados à falta de conhecimento versus as perspectivas para que a mídia seja uma formadora de opinião.
Defender a causa animal e ambiental é uma árdua tarefa já que se contrapõe a interesses sempre de cunho financeiro.
Quem quer destruir uma floresta não o faz por outro motivo senão o lucro financeiro. Quem constrói uma ‘fabrica’ de animais não o faz por outro motivo se não o já citado.
“As aves e as outras espécies que são criadas em confinamentos nas fábricas não são as mesmas que são criadas em casas, sítios ou fazendas. Não podemos imaginar que uma galinha que seja criada no quintal e tem nome afetivo como Giselda, Margarida e etc terá o mesmo fim de aves que estão sendo ‘fabricadas’ em larga escala para consumo humano”. Essa afirmativa foi proferida por um conceituado filósofo brasileiro, em um seminário no Rio de Janeiro do qual eu participava e contestei afirmando que esse pensamento segue a linha de raciocínio dos europeus que, como noticiam amplamente os jornais e foi abertamente citado no premiado filme Central do Brasil, ‘compram e extraditam’ crianças brasileiras pobres para que em seus paises doem involuntariamente seus órgãos infantis para crianças de origem nobre.
Deve ser ainda seguindo este desastroso raciocínio que as indústrias vêem os animais, como a igreja católica há bem pouco tempo via os negros e os índios, ou seja, sem alma. São seres que não têm desejos e, consequentemente, não possuem sentimentos, portanto, não sentem dor, frio ou medo.
Na contra partida a este inacreditável pensamento que fortemente nos afronta, existe o poderio da mídia fortalecido pela desinformação e/ou desinteresse de quem ainda equivocadamente vê o animal como seu alimento ou como seu enfeite predileto.
A desinformação em grande escala pode ser por total falta de conhecimento ou, ironicamente, pelo total conhecimento da informação.
Pelo total conhecimento da informação temos como caso a recente e acintosa troca do nome de uma peste como a gripe suína para gripe H1N1. Trocar o nome da marca de um automóvel por causa das quedas nas vendas não muda o curso da queda das vendas. Trocar o nome de uma doença que irá provocar uma eminente epidemia não muda o curso da epidemia. O que muda este curso é o alerta de que algo está fora de controle e a conscientização de que insistir na ‘construção de fábrica’ de animais é um erro de percurso que a humanidade tem pago com a própria vida.
A todo momento temos pestes e consequentemente mortes que poderiam ser evitadas se não houvesse a ganância empresarial que cega os endinheirados homens do poder, fazendo com que eles não enxerguem animais como seres vivos, com ou sem alma, mas que merecem o respeito e a dignidade humana.
Estes homens não só não enxergam isso como manipulam animais como se fossem objetos, dando-lhes, além dos maus tratos sofridos nos confinamentos e as mortes violentas, ingredientes que, manipulados em seus alimentos, causam grandes distúrbios. Mas esta manipulação pode ser justificada quando se pensa na enorme demanda que alimenta a compra e venda dos corpos e derivados destes animais.
E é justamente em nome desta demanda que enfermidades têm abatido a humanidade, seja com o gado e a sua vaca louca, seja com o frango e a sua gripe aviária e agora com os porcos com a gripe suína.
Em suma, o que está sendo exposto aqui não deve ser considerado novidade para o grupo de pessoas que atuam na defesa da causa animal mas, com certeza, é uma informação imprescindível para a humanidade que infelizmente não terá acesso a esta informação pelo simples fato de que há um massacre financeiro junto a grande mídia para que não se toque, não se mostre, não se dissemine informações deste cunho.
Fortalecendo este ‘silêncio pago’, a mídia ainda atrapalha mais quando não informa corretamente. As informações truncadas ou equivocadas são frutos de uma sociedade consumista e nós jornalistas não estamos imunes a isto. Em nossa categoria também existe o embate dos que são carnívoros e dos que são vegetarianos. O problema é que o primeiro grupo é enormemente superior em número do que o segundo. Seja de forma voluntária ou imposta, fortalece, ainda que por tabela, o especismo.
Na COP XV, na Dinamarca, em Dezembro de 2009, onde a delegação brasileira teve pífia participação, não se comprometendo com nada, com nenhuma meta e que ainda teve a constrangedora declaração da presidenciável Dilma Roussef ao afirmar que ” o meio ambiente é, sem dúvida nenhuma, uma ameaça ao desenvolvimento sustentável!”, o encontro foi palco de acirrada discussão sobre o meio ambiente.
Nesta discussão, uma das maiores preocupações do mundo é com a floresta amazônica e como ela está sendo vista e tratada. O desmatamento amazônico beira o absurdo mas nada que se compare à forma com que os americanos vêem a nossa floresta. Veja abaixo como o respeitado Museu de História Natural de Nova York divulgou nos EUA como é a nossa Amazônia.
Voltando ao especismo, ele em muito atrapalha a mídia na divulgação de matéria sobre os animais. O jornalista especista tende de forma natural a pautar o animal de sua predileção para a matéria de capa e ao fazer isso aniquila com as outras espécies. Uma matéria sobre os peixes não pode conter somente baleias, tubarões e golfinhos. O tema deve ser aprofundado para que, enriquecido, mostre as outras espécies do mar.
Talvez seja por isso que, a todo momento, temos colegas publicando nomes de animais de forma equivocada, quando não, atribuindo créditos a espécies anatomicamente diferentes. Vejam a seguir como o editor do Caderno Opinião, do jornal O Globo, acredita ser uma garça ou um grupo delas.
Não fosse o fato de o biguá ser bem menor e de cor negra…
Como falamos aqui dos grandes patrocinadores das fábricas de animais de uma forma bem tranqüila, polida e elegante, esperamos assim não ser acionados judicialmente, o que vale também para a desinformação de alguns colegas, passamos ao crucial tema das perspectivas para que a mídia seja uma formadora de opinião.
Diante do que foi exposto aqui só temos a confirmar que são ruins as perspectivas de que a mídia atue como um grande instrumento formador de opinião. Se no campo da defesa ambiental já tivemos progresso, no campo da defesa animal tivemos pouca coisa ou quase nada.
Vou fazer aqui uma afirmativa extremamente polêmica. Não necessitamos do animal enquanto alimento para o ser humano. Mas como fazer esta polêmica informação chegar à população com a grande mídia sucumbindo ao massacre financeiro imposto pelos proprietários das fábricas de animais? Isto porque esta imposição está intrinsecamente ligada ao patrocínio.
Quando uma fábrica que vende cadáveres de animais tem algum deslize maior e se vê na mídia, imediatamente isto é ‘abafado’ com o álibi de que se trata de uma situação atípica. E o resultado disso é que os grandes telejornais não comentam a matéria ou fazem de forma rápida para que não fique caracterizado como isenção jornalística.
E também não há interesse da mídia em propagar de forma espontânea este assunto já que ela em sua grande maioria é consumidora direta do produto. O jornalista que sente prazer no consumo da carne, e não tão somente busca o seu pseudo nutriente, dificilmente se comoverá com a dor e a angústia dos animais e certamente não irá lutar para que seja aprovada uma pauta sobre o sofrimento animal. Como nos primórdios dos jornais brasileiros, os senhores de engenho também não permitiam que se tocassem no assunto da dor e da angústia que fugiam das senzalas.
PAULO MAIA É JORNALISTA, AMBIENTALISTA, DIRETOR PRESIDENTE DA ONG SOS AVES E CIA.

[/EXPAND]

A antiga novidade

[EXPAND Saiba mais]

Por: Paulo Maia

Ganha a briga quem bate primeiro, está no dito popular. O amante que trai é o primeiro a levantar a voz em um claro intuito de tentar fazer calar a parte questionadora e, se assim não conseguir, passa a usar a força bruta, machucando, ferindo e levando até a morte aquele que amou mas que se tornara um inconveniente.
Em nossa cultura, toda vez que se fala em erro, infelizmente, ao invés de se tentar buscar o acerto, culpa-se o outro pelo feito. Parece mais fácil, mas o tempo tem revelado o contrário.
A governadora Ana Júlia Carepa, do estado do Pará, um dos mais pobres de nossa Federação, com índice de miserabilidade capaz de deixar de boca ainda mais aberta os famintos dos países miseráveis, finalmente veio a público falar de Belo Monte, a usina hidrelétrica que será construída em seu estado, deixando um rastro de destruição para a humanidade e, como era de se esperar, fez uma reflexão sobre o problema atacando aqueles que defendem a não construção da usina: “…aqueles que já destruíram suas próprias florestas têm apregoado que Belo Monte destruirá nossa Amazônia. Conhecem pouco nossa realidade. É evidente que o nosso estado, o Pará, não se transformará no maior gerador de energia do país sem sofrer algum impacto…” (???)
Como disse lá no início, ganha a briga quem bate primeiro, e eles venceram. Não só porque bateram primeiro, como ainda continuam batendo e tentando esconder fatos relevantes, mostrando outros que em nada acrescentam na discussão deste enorme mostrengo que, a princípio, seria implantado há cerca de 20 anos atrás e que, ironicamente, era combatido pelo partido da governadora, não por conhecimento e defesa de causa, mas por mesquinharia política que se revela agora na pequena lembrança de que não importa o que seja feito porque somos do contra.
Na defesa de sua causa, Ana Júlia afirma que “encontrou o modelo de desenvolvimento sustentável sem destruir tanta floresta, como muitos países fizeram”, insistindo ainda em atacar ao invés de ajudar a solucionar a peleja. Teria sido extremamente útil ter avisado esta “descoberta de modelo sustentável” a todos, inclusive aos ambientalistas e defensores da terra pois, assim, vidas como a da missionária Doroty Stang teriam sido poupadas e latifundiários, especuladores, invasores, desmatadores e matadores de aluguel seriam detidos e exemplarmente condenados.
Finalizando o seu desastroso e atrasado argumento, a governadora é categórica ao afirmar: ” Nossa ação tem ido desde um zoneamento econômico ambiental até a sistematização da educação ecológica nas escolas.” (???) Não fosse o fato do estado do Pará ser o estado que mais emite CO2 por causa do desmatamento, o que interfere diretamente no aquecimento do planeta, essa última declaração teria sido menos constrangedora.
Quem sabe é este “novo modelo de sustentabilidade” que o ex e futuro ministro do meio ambiente, Carlos Minc, use para toda hora alardear na imprensa que o desmatamento da Amazônia este mês caiu 48 por cento, na semana passada caiu 60 por cento. Carlos Minc, alguma notícia séria sobre o meio ambiente? Diz aí que o desmatamento hoje, ou melhor, ontem, caiu… 20 por cento. Não, diz que caiu 80 por cento. De vinte a oitenta… o senhor está indo de um extremo ao outro. Diz então que caiu 50 por cento. Pronto. Estamos na média! De um ministro que, em dezembro último, participou da Cop 15, na Dinamarca e se calou deixando que Dilma Roussef, candidata a presidente do nosso país e chefe da maior delegação, cerca de 800 pessoas, tomasse o seu pronunciamento e, inacreditavelmente, anunciasse ao mundo que ” o meio ambiente é, sem dúvida nenhuma, uma ameaça ao desenvolvimento sustentável!”, não se pode esperar muita coisa.
Em meio a tanta dúvida e imposição, o que podemos esperar, ainda, do grupo que venceu a licitação para a construção da usina mas que responde a processos nos estados de Tocantins, São Paulo, Mato Grosso do Sul e do próprio Pará, depois que deixou um rastro de denúncias de crimes trabalhistas e ambientais? Um pronunciamento afirmando possuir ” a descoberta de um novo modelo sustentável”? Infelizmente, esta resposta virá depois que homens, mulheres, animais, culturas e meio ambiente forem aniquilados quando, como era do conhecimento de todos, para uma simples distribuição de energia, havia outras soluções sem agredir nada e ninguém.
Ps. Usar um discurso fácil e demagogo, chamando os ambientalistas críticos deste projeto para plantarem árvores, é o mesmo que não tomar conhecimento de que uma adolescente pobre e analfabeta ficou encarcerada por dias em uma prisão, saciando a sede sexual de vários detentos.

PAULO MAIA É JORNALISTA, AMBIENTALISTA, DIRETOR PRESIDENTE DA ONG SOS AVES E CIA.

[/EXPAND]

A lembrança nossa de cada dia, dia após dia

[EXPAND Saiba mais]

Por: Paulo Maia

A Rainha Elizabeth, ao ser questionada se era para guilhotinar o amor de sua vida que havia lhe traído, foi taxativa: deixe-o vivo e sob os meus olhos para que eu possa me lembrar todos os dias que a traição e a covardia existem. Isso parece ter dado aos ingleses o hábito salutar da lembrança. Ela tem que estar viva. Sempre viva para que, através da experência adquirida, não se cometa os erros do passado.
Na coluna Panorama Político, do jornal O Globo, do dia 27, o colega Ilimar Franco afirma que a ex-guerrilheira(olha a lembrança viva) Dilma Roussef comenta sobre a memória do povo: ” Você lembra o que ocorreu com Jirau? Lembra como foi Santo Antônio? Hoje ninguém mais fala nada e as obras estão sendo tocadas”. Para quem é candidata a presidir um país, um posicionamento deste é no mínimo constrangedor.
Uma nação deve ser construída em seu dia a dia, buscando melhorar o futuro, levando para ele o melhor do presente e os acertos do passado. Os erros devem ficar na lembrança para que não sejam jamais repetidos. Mas pela declaração de Dilma, os erros são tão somente erros e devem ser praticados pois serão esquecidos.
Deve ter sido esta linha de raciocínio que o Grupo Bertin seguiu para ter arrematado do Governo, e com seu total apoio, a concessão para a construção da polêmica usina de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará. O grupo responde a processos em pelo menos quatro estados, no próprio Pará, Tocantins, São Paulo e Mato Grosso do Sul, depois que deixou um rastro de denúncias de crimes trabalistas e ambientais quando transferiu seus negócios para a JBS, sua ex-rival. Ética e moralidade? Para que ética e moralidade? Daqui a pouco ninguém mais fala nisso e a usina será construída, mesmo devastando o meio ambiente e aniquilando culturas. Meio ambiente e culturas? Para que servem? E o mais contraditório de tudo é o fator intransigência. Estão impondo um projeto que já nasceu falido há mais de vinte anos, mesmo tendo consciência de seu efeito devastador e sabendo que existem outras fontes alternativas de se gerar energia.
A candidata do atual governo parece que leva à risca o projeto de comandar o país em um mandato tampão de quatro anos e depois entregar o jogo para o atual presidente governar por mais oito. Esta roda viva de um país sem lembranças permite absurdos para que, até mesmo aqueles que nunca tiveram experiência para comandar sequer uma pequena comunidade metropolitana, se arvorem a governar a oitava potência mundial, mesmo mostrando que não possuem sensibilidade para enxergar que, neste momento, homens, mulheres, animais e meio ambiente serão aniquilados. Mas, o que imposta isso? Daqui a pouco ninguém mais se lembra…

PAULO MAIA É JORNALISTA, AMBIENTALISTA, DIRETOR PRESIDENTE DA ONG SOS AVES E CIA.

[/EXPAND]

Esse Rio é minha Rua

[EXPAND Saiba mais]

Por: Paulo Maia

Durante os longos seis anos em que vivi na Amazônia, digo longos anos porque na Amazônia tudo é longo, largo, grande e possui dimensões inimagináveis, aprendi entre tantas coisas a respeitar e a entender as forças da natureza. Para isso, bastava observar a calma e a sabedoria com que o caboclo da região cruza os gigantescos rios, em extensão e volume d’agua, que, na verdade, são suas ruas e estradas.
Em uma canoa que mal cabe um homem, depois de deixar o seu tapiri e cruzar os igarapés, ele atravessa sob chuvas torrenciais os Solimões, os Negros e os Madeiras de sua vida, beneficiando-se de suas fortes correntezas e, de forma hábil, chega à beira das minúsculas e sempre abandonadas cidades ribeirinhas para vender os seus tucunarés, tambaquis e tracajás ou trocá-los por sacos de farinha ou de pupunhas, por exemplo.
Respeitar a natureza e aprender com ela, não se rebelando contra sua força, é, no mínimo, um grande sinal de sabedoria e aprendizado humano. Para que isso aconteça, não carece de grandes aparatos tecnológicos que, usados de forma correta, ajudam mas que não são necessários para alertar sobre um fenômeno comum e altamente previsível como o que chegou em nossa região, na noite de segunda-feira, dia 05. Em cidades abandonadas politicamente como o Rio de Janeiro, uma pequena chuva já é motivo de enorme preocupação, imagina quando ela deixa de ser pequena.
Diante da total isenção do governador do Estado que culpou as mortes “por causa das pessoas que vivem em áreas de risco” e do prefeito do Rio que pedia que as pessoas necessitadas buscassem ajuda nas proximidades, nas áreas pobres, o caos se instaurou.
Como protetor dos animais e ambientalista, depois de longas horas em árduos trabalhos para ajudar pessoas e animais, duas cenas me chamaram ainda mais a atenção. Uma em São Gonçalo, na região metropolitana, onde uma família inteira, ajudada somente pela população, deixava a sua humilde casa e cruzava ruas que viraram rios, fugindo de barco, nele levando um cachorro vira-lata tão molhado e tão magro que era a perfeita tradução do que estava acontecendo: desolação pelo total abandono das autoridades.
A outra cena aconteceu com uma senhora que, ilhada na Lagoa Rodrigo de Freitas, depois de ser alertada pelo repórter de que a região estava submersa, exclamou: “Meu santo, a cidade fechou… Parou!”.
Quem sabe se fizermos uma reflexão em conjunto não iremos perceber que o despreparo do poder público, aliado a um grande descaso e ao enorme grau de aceitaçao da nossa população fizeram com que o Rio de Janeiro tenha fechado, parado no tempo, há muito tempo! E que, através desta reflexão, poderemos descobrir o óbvio, ou seja, que precisamos de administradores de verdade que dediquem suas vidas a trabalhar e saibam pelo menos a simples diferença entre rios, igarapés, igapós, ruas e estradas e que fenômenos naturais são previsíveis, altamente previsíveis, preservando assim… vidas, tão somente vidas!

PAULO MAIA É JORNALISTA, AMBIENTALISTA, DIRETOR PRESIDENTE DA ONG SOS AVES E CIA.

[/EXPAND]